Vermelho tomate

por Neno Moura

Tinha alguma coisa que meu sinal capturou. Acho que era poesia. Não sentia isso por qualquer mulher. Ali tinha um frescor, a anunciação de algo quente e novo. Certos ares de fora, como uma carta repleta de novidades remetida de um mundo moderno para uma província atrasada. Tinha um desejo real por descobrir o que havia por baixo das vestes. Sentir a maciez da pele do pescoço que o olhar previa. As narinas esforçavam-se para alcançar um nível animalesco de olfato e, frustradas, tentavam adivinhar o perfume. Uma sensação de que, repentinamente, tudo valia abateu-se sobre a timidez.  O bloody mary começava a fazer efeito e o sal na borda do copo elevava vagarosamente a pressão. Ela dava sutis indicações de que havia reciprocidade. Não tinha mais por que prolongar o flerte.

Aproximei-me e, com um gesto, indiquei a cadeira vazia ao seu lado. Sem dizer palavra, ela estendeu a mão aberta por sobre a cadeira e sentei. Informações iniciais trocadas; ela, estudante de Arquitetura recém-vinda de uma temporada de estudos na Itália; eu, no último ano de Engenharia Civil, aproveitando os momentos finais de um período vivido de extremos, em todos os sentidos. A conversa fluiu com naturalidade, falamos sobre política, cinema e psicologia sem que um deixasse a dever ao outro. Em pouco tempo, esquecíamo-nos das suas amigas que compartilhavam a mesa conosco e nos beijávamos vorazmente. Entendemo-nos bem. As horas passaram voando até que um garçom começou a recolher os últimos pedidos das mesas. Finalizamos com uma tequila cada um e a convidei para ir até minha casa, na verdade, um quarto alugado a duas quadras dali.  Convite aceito, nos despedimos e fomos a pé até lá.

Caímos sobre roupas e livros espalhados na cama. Bocas grudadas, corpos do mesmo jeito. O hálito morno provocava suores nas faces e excitava mais à medida que o vermelho vivo do batom era transferido à minha boca. Com certa dificuldade, arranquei o jeans apertado e aderente às suas pernas. Percorri com a língua o caminho do calcanhar até as bordas da calcinha úmida, que exalava um vapor ácido. Procurei espaço entre o tecido e a pele tenra que ele cobria e, ao senti-la tocar a língua, suguei-a como um caju maduro, deixando um de seus lábios latejantes para fora. A essa altura, já sentia o sangue esquentando minhas extremidades, crescentes a cada pulsação. Subi novamente à procura de sua boca, os pelos do peito rentes a seu corpo glabro faziam atrito e davam a impressão de faíscas. Meu membro, ainda não totalmente rijo, buscava entrar em seu corpo como se tivesse o faro de um cão. Encontrou o encaixe de sua cavidade, como se fosse de ferro e ali houvesse um imã. Deslizou facilmente para dentro, ganhando rigidez total após as primeiras estocadas. O que se seguiu madrugada adentro foi puro entendimento, sintonia anatômica perfeita, até que caímos exaustos lado a lado, a respiração ofegante e um riso contido no canto dos lábios.

Enquanto olhava para o seu rosto repousado sobre meu braço, a alguns centímetros do meu, a maquiagem borrada, lábios sem batom, cabelos frisados, ainda assim de uma beleza genuína, pensei que por esta mulher poderia me apaixonar e, quem sabe, iniciar uma relação que marcasse o fim da minha solidão voluntária. Nunca mais a vi. A não ser hoje, nesta memória, enquanto escolho tomates no supermercado para minha esposa.