Uma carta de suicídio

Uma carta de suicídio

por Márcia Barbieri

Não me venha falar desses rifles armados em cima da mesa
nem das baratas voadoras que infernizam nossa desordem cotidiana
Nem da ineficácia dos inseticidas
nem dos carrapatos que invadem meu corpo e me devoram como se eu fosse uma cadela
nem do sexo mal feito nem do beijo sem línguas nem da naftalina que surpreendemos entre os lençóis
Nem do esperma que lava meu útero e depois escorre pelo ralo do banheiro
Nem das aranhas que se escondem nas dobras da minha vulva
E escalam na aridez dos meus pequenos-grandes-lábios
nem me fale dos ratos que simularam voos nos canos e acabaram sufocados nos aquedutos
nem me fale dos matagais que cobriram os pardieiros
nem dos pardais mancos ou dos gatos que se jogaram do décimo andar
Nem dos loucos que caminham com outros loucos feito manadas
nem dos amigos inconsequentes e suas mandíbulas felizes para autorretratos
Nem me conte causos irreverentes
Nem me fale de você
não me acorde se não te ocorre nenhuma notícia amena para me dar
antes encha meu café com ansiolíticos
diga aos inimigos que a burocracia me venceu

e ainda estou arquivando os danos
E aos amigos que não me procurem
cubra meu corpo com escombros
sim esse mesmo que você ajudou a produzir
e se perguntarem diga que envelheci como os animais selvagens e inconscientes