Um terço da banheira

Um terço da banheira

por Maíla Sandoval

Olhei pra cima e vi meu corpo esparramado no espelho, logo lembrei que ontem comi metade do queijo light de meio quilo que tava na promoção. Meu estômago tá pesado até agora. Comi o queijo light e agora minha bunda esparramou pelo colchão porque meu estômago continua pesado. Não queria nem que ele saísse do banheiro. Também não queria apagar a luz nem entrar nos lençóis. Cama de motel é feita pra amassar e não desfazer. Eu tinha as minhas regras. Vou procurar a meia luz e encher a banheira. Na água todos são gordos. Eu só queria ser suficiente, sem ser a mais ou a menos. Boa de apertar, fácil de carregar. Mas parece que não há domínio do querer neste meu corpo esparramado. Quero entrar na banheira antes que ele saia do banheiro. Quero ligar na recepção e pedir um quarto sem espelhos, ou sem luz, ou um sanduíche de queijo e um café. Umas camisinhas extras pra transformar minha insegurança em demanda. Quero que ele perca meu telefone e me busque na internet pra se justificar. Foi tudo dentro da sua cabeça, eu pensei em você o tempo todo. O meu corpo e minha mente andam a quilômetros um do outro. Minha mente conquista, o meu corpo destrói, assim que vai se aproximando, logo após o coito, interrompido ou não. Voadora de umbigo profundo que engole o dedo da fita métrica. Minha mente entrou aqui, ainda um pouco bêbada quando me deparei com o espelho no teto e meu bumbum esparramado, meu rabo semi-depilado. Fui chamada de gata pra caralho mas só consigo pensar em gordelícia. Essa é minha ruína. Agora, nunca mais eu gozo. O corpo já chegou dando um triplo mortal. Acho que tava me esperando aqui na suíte Egito Mágico, carimbando o espelho no teto. Como eu faço pra acabar logo com isso. Cancela o queijo quente e as camisinhas. Ninguém transa mais. Vamos ver o que tá passando. Deve ter algum canal de esportes entre os filmes de chupar pau. Telecurso 2000 versão estrada. Banheira, bolhas, apaga logo esse espelho. Ele entrou no chuveiro de vidro transparente porque teve um dia nervoso. Eu acabei de tomar banho e meu corpo continua cheio de volume. Bom pra apertar, mas as marcas estragam aos olhos. Nus, ficam melhor no escuro. Mas eu sou feminista. Não apagarei a luz. Tenho que me aceitar assim como ele que já fechou o contrato. Estamos aqui, não estamos? Não tem nada a ver com o rapaz. A voadora é na minha testa. Corpo e mente num duelo repetitivo. Entro na banheira e espalho minhas coxas sem derramar uma gota, imaginando se entre elas ainda cabe qualquer coisa. Essa banheira é pra dois, mas na minha mente, já derrotada, é melhor continuarmos no chuveiro. Duelo vencido pelas curvas ilimitadas, meus pensamentos buscam logo uma piada pra preencher o terço da banheira assim que ele deixar o chuveiro. Hidromassagem e tudo bem que a água escorra pelas laterais. Espuma e tudo bem que fique apertado. Pode entrar, a gente dá jeito, eu disse, torcendo pra luz apagar.