Para L.


Nu couche, 1917 – Amedeo Modigliani

 

por Adriana Gehlen

Escrever não faz mais o menor sentido pra mim, talvez a causa seja essa invasão de objetividade avassaladora dos últimos anos, mas senti a necessidade de te escrever essa carta porque sei que gostas das minhas felicidades passageiras.

Conheci Filipe na internet. Conversamos ao longo das horas algumas pautas existenciais. Entediante para alguns, mas extremamente estimulante para mim. Dias depois decidi convida-lo para uma festa em cima da hora. Eu não esperava nada, sinceramente. Ele me parecia sério, mas pessoalmente as coisas talvez pudessem mudar, eu pensei.

Ele saiu de uma festa de casamento recém começada e foi me encontrar. Achei bonito que tenha decidido largar a festa na hora, embora devo confessar que uma foto minha com poucos trajes o ajudou a decidir em um minuto.

Chegou bonito. De terno bem cortado, camisa branca, gravata frouxa. Cumprimentou todo mundo, conversamos um pouco e ele disse:

– preciso fumar, me acompanha lá fora?

– te acompanho nas escadas, respondi.

Ele sentou num lance de escada e eu dois para baixo pra fugir da fumaça.

– vem mais pra perto, ele disse.

Eu fui. De fumante passiva dois lances abaixo ou acima, tanto faz. As luzes do sensor dos corredores desligaram. Ele deu uma tragada. Eu dei um beijo na boca.  Entre as tragadas os beijos. O cigarro que acaba. Trocamos de lugar na escada.  Ele se ajoelhando em minha direção com a boca afastado as minhas pernas. Deves imaginar, né? Logo depois a luz volta e junto com ela um vizinho. Não ficamos constrangidos. Depois de uma certa idade não há constrangimento. Ambos sentimos que só precisaríamos trocar de lugar.

Levei Filipe para um quarto do apartamento longe da festa, embora poderia deixar as coisas como estavam. O sutiã e o zíper da calça fechados. Poderia, mas pra que esperar? Já havíamos conversado demais. Tiramos tudo, ficamos entrelaçados em puro calor. Algumas horas depois, quando foi embora, minhas pernas tentavam se encaixar novamente no angulo correto do corpo e abri a porta lentamente para ele sair. Aparentemente todos dormiam, mas tive a impressão que alguém assaltava a geladeira na cozinha. Decidi pensar que não me veriam. Se vissem eu já tinha feito mesmo e não adiantava reclamar, porque estava feliz e ninguém me derruba nessas horas. Ele me beijou e foi. No dia seguinte fui embora da cidade.

Confesso que sinto saudades de Filipe, de seu sotaque malandro e olhar sério, um corpo que definitivamente caiu bem com o meu. E mesmo aventureira no que diz respeito a encontrar um sexo bom, volta e meia aparece alguém que me faz querer um só, tipo esse cara. E na real essa é a intenção. É no conhecido que o sexo se aprimora. Não na distância de intenções e demasiadas dúvidas. (Não confundir dúvidas com mistério). Confiança sempre traz mais dilatação, além do vinho e outras ações. Tu me entende.

Enfim. Melhor terminar minha garrafa e não pensar muito.

Tu me perguntastes dias antes se estou bem. Estou fazendo o meu melhor.