O nascimento da necrófila

por Ramos Flã

Um dia, por telefone, a mulher recebe a notícia. Morte rápida, a do marido, parece que no trabalho – e ela andava desconfiada que um dia aquele emprego ainda ia matá-lo! Já para ele não importava o estresse do presente, sonhava mesmo era com um futuro mais tranquilo… Parece que agora não haveria mais horizonte algum.

Ela respira, assiste ao filme da vida na mente, recoloca o telefone no gancho e sai em busca de algum vestido adequado para a ocasião, se isso é possível. Segue para o IML, onde não precisaria de fato reconhecer o corpo, conforme o colega do esposo explicara pelo telefone, mas resolver alguns procedimentos legais que dependiam da sua presença.

Lá, seu inconformismo atinge o ápice quando lhe é permitido ver o corpo, que sempre tão quente e vivo, agora não passava de uma simples massa putrefando. Aquele homem com quem compartilhou a cama, o jantar, e apenas romanticamente a escova de dentes. Um alguém sobre quem julgava conhecer alguma coisa, porém que lhe abandonara assim, repentinamente sem aviso…

Seu desespero em meio a tais pensamentos transportou-a até um momento remoto, em que, há muitos anos e reunida com um grupo de amigas, uma delas comentou a história da necrofilia. Segundo tal amiga fazia pouco tempo que essa expressão era usada no feminino, pois até então achava-se que apenas os homens poderiam ter relação sexual com um cadáver. Mas parece que se o homem for decapitado, seu membro se enrijece, possibilitando que uma mulher usufrua do seu corpo morto. Na época, riram e imaginaram a Rainha de Copas e suas infinitas ordens de “CORTEM AS CABEÇAS!”.

Agora, porém, era outra história. Não tinha risadas e imaginação juvenil, mas uma mágoa repentina em sentimentos maduros. Ela estava mesmo ali, vivendo seu drama em frente ao cadáver que lhe pertencia (ou sobre o qual era apenas responsável, como queiram), e, apesar de tudo, ele ainda parecia perfeito. Finalmente pôde juntar as peças bagunçadas da sua cabeça, encorajou-se a si própria e chamou o guarda-corpos (em verdade é que nunca tinha precisado empregar tais termos, portanto, nem sabia como se expressar corretamente na situação).

Propôs – direta, mas discretamente – que ele lhe ajudasse a ter um último momento íntimo com seu esposo. A princípio o homem em serviço não acreditou no que ouviu, e até assumiu ares de ofensa, como se a mulher não levasse seu trabalho a sério. Mas ela levava.

– Por favor, só te peço que corte a cabeça, depois durante o velório colocamos junto ao corpo no caixão e ninguém nunca perceberá. Será um segredo nosso… O senhor pode imaginar a vida para uma jovem viúva? (Sim, ele podia imaginar e justamente esse era o motivo pelo qual ele julgava ainda mais desnecessário aquele ato, que podia até ser um crime…)

– Crime por quê? Já morreu! Crime é me deixar assim, sem aviso. Se eu soubesse, teria pelo menos aproveitado melhor as últimas oportunidades… mas enfim, eu me responsabilizo!

A mulher permaneceu no local até convencer o guarda-corpos que não iria embora sem conseguir o que queria. Enfim, era melhor fazer logo de uma vez para ser deixado em paz.

Ela: comemorou a positiva e foi ao banheiro se preparar para a novidade, pois era praticamente como perder a virgindade outra vez. Ele: entrou na sala vazia de vida, fez sua parte e nada do morto fazer a parte dele. Chamou a mulher e mostrou-lhe o corpo, imóvel e exatamente igual antes da decapitação. Não deu certo!

Ela não podia compreender, na sua cabeça parecia tão óbvio e simples! Procurou a história em suas lembranças… talvez o cara tivesse que ter sido morto por decapitação. Será? Estava confusa, mas agora não tinha mais volta: já tinha mandado cortar a cabeça do seu defunto e queria aproveitá-lo de qualquer maneira.

– Bem, fico com ele assim mesmo.

O funcionário se retirou enquanto inevitavelmente refletia sobre as loucuras desesperadas com as quais se deparava diariamente naquele emprego. Se fosse um homem das letras, certamente iria escrever um best-seller.

Quanto a jovem viúva, essa ocupou-se como pôde do corpo conhecido mas agora indiferente. Deitou sem medo sobre ele enquanto segurava-lhe a cabeça entre os braços e abraços. Ela gostou da situação. Logo estava realmente confortável e chegou a conclusão que podia, sim, amar ainda mais aquele homem.

No velório, o caixão permaneceu fechado a pedido da esposa. Os presentes entenderam a súplica como sofrimento, no entanto tudo o que ela não queria era desmanchar a imagem e a sensação de prazer que a havia invadido horas antes, e até já calculava as futuras possibilidades de intervenções cadavéricas… afinal, agora já não era quase amiga do guarda-corpos?