Não existe amor em SP

Não existe amor em SP

por Ellen Maria 

Lambi seus dedos feito paleta mexicana
na rua Augusta às duas da tarde.
Devorei seus beijos entre um mar de gente
sedenta na Praça da República.
Mordi suas costas enquanto cantávamos
ao som independente num centro cultural.
Traguei seu hálito
como um sanduíche de pernil
no final de um clássico no Pacaembu.
Bebi seu suor no meio de um passeio ciclista
numa manhã de sábado no Ibirapuera.
Mastiguei seus olhos
enquanto esperávamos na fila
do teatro no Sesc Pompéia.
Comi suas pernas com pipoca
assistindo um filme antigo
da Mostra.
Engoli seu leite enquanto ardia
verde
na praça Pôr-do-Sol.
Provei seu ventre enquanto o trem partia
na estação da Luz.
Guardei seus restos em um tupperware azul
no fundo do meu
freezer.
Doei a geladeira
com tudo dentro
pelo facebook.