Mulheres e poetas mulheres na Grécia Antiga

Mulheres e poetas mulheres na Grécia Antiga

por Lilian Sais

Quando pensamos sobre a condição da mulher na Grécia Antiga é difícil que nós, brasileiros contemporâneos, não nos lembremos da famosa “Mulheres de Atenas”, canção de Chico Buarque que marca a submissão da figura feminina em relação à masculina. Nessa composição, contudo, Chico Buarque claramente brinca com a alusão ao estereótipo da mulher dessa cidade específica, e em um momento histórico bastante preciso: o século V a.C. Há de se ter em mente, no entanto, que as diversas cidades-Estado, de origens étnicas diferentes, possuíam uma organização social própria e, portanto, um tratamento distinto no que diz respeito às mulheres. Desse modo, embora sejam escassos os dados que temos hoje sobre o tema, é bastante provável que cada origem étnica – a dórica, a lésbio-eólica, a jônica, entre outras – tenha experimentado uma rotina distinta para o universo feminino. O fato é que sabemos muito pouco sobre o comportamento de cada uma dessas unidades políticas e sociais em relação às suas mulheres. Temos mais dados precisamente sobre a Atenas do século V a.C., mas ainda assim o cenário não é animador: estudos recentes nos mostram que não necessariamente as leis atenienses coincidiam com os costumes atenienses, e também o modo como as imagens das mulheres encontradas na mitologia não coincidem necessariamente nem com a lei nem com os costumes da realidade da Atenas Clássica, embora possua conexões reveladoras com ambos.

Se quando fazemos um recorte tão específico de tempo e espaço (e escolhemos o período e o local sobre os quais temos mais dados relativos às mulheres) encontramos essa dificuldade, a incongruência conflitiva dos dados, imaginemos então o que acontece quando olhamos para além da Atenas Clássica: ao longo dos séculos, os costumes da vida cotidiana se alteraram e, além disso, não dá para deixar de lado as diferenças e especificidades de cada parte daquilo que hoje agrupamos simplesmente como “Grécia Antiga”.

De modo geral, muitos estudiosos acreditam que a casa (oîkos) era o espaço social feminino por excelência. A mulher estaria submissa ao homem e seria, então, responsável por gerir as tarefas domésticas e confeccionar roupas e tapetes, fiando e tecendo. Além disso, as mulheres estariam submetidas a regras de comportamento bastante rígidas que visavam a controlá-las, porque dentro da misoginia latente dos períodos arcaico e clássico elas sempre eram vistas pelo “outro”, o homem, com desconfiança, como um ser potencialmente transgressor, volúvel e instável, que teria dificuldade de controlar seus impulsos e paixões. Decerto essa visão geral da mulher não nos causa estranheza: nós, que ainda hoje vivemos em uma sociedade patriarcal, estamos acostumados à ideia de que a mulher é um ser essencialmente “instável” e “dramático” – vale lembrar que não faz tanto tempo assim o vibrador foi inventado como uma forma de cura para a “histeria”, um suposto “problema nervoso” que resultaria em “instabilidade emocional” e que acometeria as mulheres porque se originaria no útero (“histeria” e “útero” são palavras criadas a partir de uma mesma raiz). Nessa perspectiva, desde a Grécia Antiga a mulher está associada a elementos líquidos, à natureza e ao selvagem, em oposição ao homem, que está associado à cultura e à civilização. O casamento, então, seria a etapa necessária e crucial da vida da mulher que objetivava, em última instância, manter a mulher e o seu eros selvagem sob controle, estabelecendo regras sociais e culturais que imporiam uma ordem civilizada ao caos da natureza.

No entanto, esse cenário geral que representa a visão mais estereotipada que temos das mulheres na Grécia Antiga precisa ser relativizado. Citemos, por exemplo, as inscrições em Linear B, que trazem textos do período micênico e estão datadas por volta do século XIV a.C.: nelas, aparecem numerosas ocupações femininas realizadas por mulheres de classes mais e menos abastadas fora do ambiente doméstico, relativas a trabalhos manuais diversos e função sacerdotal. Esses dados conservados em fontes arqueológicas nos indicam que a situação das mulheres na civilização micênica era bastante distinta daquela das mulheres de Atenas do século V a.C, mais igualitária em relação aos homens, e colocam as mulheres como uma parte essencial da força de trabalho micênico-grega.

Entre as tábuas de Linear B da civilização micênica e a Atenas do século V a.C. temos quase dez séculos que nos são testemunhados, basicamente, por textos da literatura grega, em um conjunto de gêneros e subgêneros (cujas especificidades devem ser levadas em conta) dos quais nos chegaram uma parcela ínfima, quase sempre fragmentária, e predominantemente realizada por homens, que coloca as figuras femininas como seres de quem sempre é preciso desconfiar, pois elas constituem um objeto estranho, diferente/desconhecido e potencialmente perigoso. Sabemos, no entanto, que apesar da maioria esmagadora de poetas ser do sexo masculino, existiram também mulheres poetas, embora infelizmente quase nada da produção delas tenha se preservado, restando-nos poucos fragmentos ou até mesmo apenas seus nomes e/ou registro histórico-biográfico. A exceção para esse cenário tão desolador é Safo, de Lesbos – uma das maiores ilhas do Egeu, onde aparentemente, a exemplo de Esparta, as mulheres gozavam de mais liberdade do que em Atenas. Parece eloquente, inclusive, que dentre as poetas mulheres de que temos notícia nenhuma seja da região da Ática.

Sabemos muito pouco sobre a vida de Safo. Ela teria nascido por volta de 630 a.C em Êresos e teria vivido a maior parte de sua vida em Mitilene, cidade mais proeminente de seu tempo. Sua obra teria sido organizada pelos estudiosos da Biblioteca de Alexandria em nove volumes, dos quais todos se perderam. O que nos chegou através de papiros foram apenas cerca de 200 fragmentos, quase todos em condições precárias. Neles, contudo, é possível notar um conteúdo erótico inegável envolvendo majoritariamente mulheres, o que sempre gerou muitas especulações sobre a sua vida, que muitos tentaram reconstruir a partir de seus textos, sem considerá-los ficção. É do nome da ilha de nascimento de Safo, Lesbos, que se derivou o termo “lesbianismo”, registrado pela primeira vez com o sentido atual em 1870, e o termo “lésbica”, registrado pela primeira vez com o sentido atual em 1890. De fato, a língua grega antiga possui os versos lesbiázein e lesbízein, que significam “agir como uma de Lesbos” e tinham conotação de luxúria e lascívia desde, pelo menos, Aristófanes, comediógrafo grego (c. 445-385 a.C.). No entanto, especula-se que o sentido mais específico dos verbos seja o da prática de fellatio (felação) que as mulheres de Lesbos teriam inventado e que, portanto, não estariam ligados à prática sexual entre mulheres.

O que podemos afirmar com certeza é que havia um imaginário erótico que envolvia as moças de Lesbos e que as menções eróticas e homoeróticas recorrentes na poesia de Safo fizeram com que ela fosse considerada, por alguns, lésbica. Mas não apenas lésbica, como também defensora do amor livre, musa romântica, ícone de afirmação feminina: muitos foram os rótulos já atribuídos à poeta na tentativa de preencher as lacunas do nosso parco conhecimento sobre a mesma. Como explicar que possa ter havido uma poeta mulher como Safo no período arcaico (todas as poetas mulheres de que temos notícias lhe são posteriores em pelo menos um século), que se expressou da forma como ela se expressou e conseguiu tanta notoriedade em uma sociedade na qual o elemento masculino é tão forte? Para essas perguntas não há resposta segura. O que podemos afirmar com certeza é que Safo é um caso único, seja por ser uma poeta mulher no período arcaico da Grécia Antiga, seja pela extensão e repercussão de sua obra. Deixemos, portanto, que a sua obra fale por si e reverbere ainda hoje. Encerro esse breve texto com o “Hino a Afrodite”, de Safo, único de seus poemas que nos chegou na íntegra:

Afrodite imortal de faiscante trono
filha de Zeus tecelã de enganos peço-te:
a mim nem mágoa nem náusea domine
Senhora o ânimo

Mas aqui vem – se já uma vez
a minha voz ouvindo-a de longe
escutaste e do pai deixando a casa
áurea vieste

atrelado o carro. Belos te levavam
ágeis pássaros acima da terra negra
contínuas asas vibrando vindos do céu
através do ar,

e logo chegaram. Tu ó Venturosa
sorrindo no rosto imortal indagas
o que de novo sofri, a que de novo
te evoco,

o que mais desejo de ânimo louco
que aconteça. “Quem de novo convencerei
a acolher teu amor?” “Quem, Safo, te faz sofrer?”

“Se bem agora fuja, logo te perseguirá,
se bem teus dons recuse, virá te dar,
se bem não ame, logo amará – ainda que
ela não queira.”

Vem junto a mim ainda agora, desfaz
o áspero pensar, perfaz quanto meu ânimo
anseia ver perfeito. E tu mesma – sê
minha aliada.

(Tradução de Jaa Torrano)


PARA SABER MAIS

Quer entender um pouco mais sobre a misoginia no pensamento mítico grego? Dá uma olhadinha nisso aqui:

– mito da criação da primeira mulher: http://primeiros-escritos.blogspot.com.br/2008/03/os-trabalhos-e-os-dias-vv-42-105-o-mito.html

– poema jâmbico sobre as mulheres: http://primeiros-escritos.blogspot.com.br/2007/10/semnides-de-amorgos-fr7.html

 

Quer ler conhecer mais sobre Safo?

– encontre traduções de seus poemas aqui: http://primeiros-escritos.blogspot.com.br/search/label/Safo

– veja o fragmento mais conhecido de Safo musicado por Leonardo Antunes, no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=_CxNIAXbuA4