Metade


Portrait of Gisela von Wehner, 1908 – Albert von Keller

 

por Ricardo Terto

Encontrei Débora no meio da tarde, de costas, com a cabeça virada e olhando praticamente pra mim. Boca vermelha, tatuagem de cruz abaixo do pescoço, marca de biquíni na bunda exposta. Débora anunciava em silêncio a “cabine privativa” do Cine Saci. Ela ficava parada ali, num tamanho muito maior que o de uma mulher, às vezes balançava com o vento, às vezes era limpa com álcool. O seu calcanhar, um ficava escondido atrás da palavra Sexy Hot e outro por uma bandeira do Mastercard seguido da frase “Aceitamos todos os cartões”.

Débora, cabelo preto pintado num preto que não existe, preto igual ao cílio que não existe, no olho verde que não existe, a boca num vermelho que não existe, tudo inventado, bonito, me fazendo sorrir no caminho do restaurante popular. Se eu passasse e tivesse alguém na frente de Débora, fumava um cigarro, fingia cair uma moeda apenas para conseguir vê-la, todos os dias exceto domingos.

Passava pelo centro quando começou a chover, água grossa. Entrei embaixo do toldo. Muita gente tem vergonha de Débora, de Aline e de Karina. Muita gente tem vergonha do Cine Saci e do guarda-chuva de dez reais entortando no primeiro ventinho.  Eu só tenho vergonha de me esconder da chuva.

Fiquei pertinho de Débora. Quase viva ela sacudia diante da breve tempestade. Quase vivo eu primeiro protegi meus sapatos dos respingos e dei alguns passos para o lado, para mais perto. Apenas moradores de rua, bêbados e vendedores de coisas que se anotam em caderninhos de bolso se abrigavam ali e eu de social, até gravata, parece até que me vesti para um encontro. Paquerei uma ideia com ela. Um trovão rompeu um poste e a luz acabou. Era de dia, mas no cinema erótico, desde a entrada, era sempre de noite. O que me tornou mais tranquilo para agir.

Parei quando estava pertinho. Ela não me olhava mais, seu rosto virado para o outro lado. Nessa hora senti que ela queria ir embora. Senti que a perderia a qualquer momento. Um teco de fita durex começou a se desprender. Eu deveria decidir ali, no momento, minha sina. Foi quando o vento mudou e decidiu por mim, Débora veio ao meu encontro. Molhada de chuva, com cheiro de cidade, ninguém diria que não senti seu cabelo longo em cada fio, o ombro gelado onde escorreria minha saliva, a nuca que despencaria em minhas coxas, as marcas da foda violenta, sexo vândalo, anônimo e sem abrigo. Só tive naquele momento o que ela me ofereceu, metade da cara, metade da boca, metade dos olhos, e a bunda com marca de sol.

Arranquei e abracei longamente seu corpo até as nuvens se decomporem. Quando o sol voltou a iluminar a tarde, devolvi Débora à sua parede sem um adesivo. Ela ficou torta e eu também. Antes de ir, notei que me olhavam como se eu fosse alguém triste.