Hiroshima Mon Amour

por Leandro Peska

“É preciso evitar pensar nas dificuldades que o mundo nos apresenta algumas vezes. Senão, ele se tornaria irrespirável.”

O diálogo acima é dito por uma personagem já no último ato de “Hiroshima meu amor” (Hiroshima Mon Amour, 1959). Talvez seja a melhor e a mais contraditória definição para o filme. Contraditória, pois o filme é multitemático, transcende gêneros e é uma obra-prima. Atrelá-lo a uma definição básica é injusto. E uma das melhores definições para “Hiroshima meu amor” é sobre memória e identidade em um mapa de emoções magistralmente concebido pelo diretor Alain Renais (1922 – 2014).

Clamando para si a essência da Nouvelle Vague, Renais mescla estilo documental e drama para explorar o encontro de dois amantes na cidade título enquanto os dois narram seus traumas pós Segunda Guerra Mundial.

Com um começo arrebatador, em que os corpos dos amantes se enrolam em diferentes texturas, em diferentes intensidades, os dois conversam sobre a impressão que a atriz francesa teve de Hiroshima: “Você não viu nada em Hiroshima. Nada”, diz o arquiteto japonês, ela responde: “Eu vi tudo. Tudo.”.

Seguem-se imagens dos pontos que ela visitou pela cidade e de acordo com que a câmera passeia pelo hospital, primeiro local descrito por ela, os personagens que ali estão, evitam o contato visual, viram o rosto no momento em que a câmera se aproxima, evidenciando assim a distância entre ela e a real Hiroshima. No museu, tudo parece artificial, quase como um transe, em que ela mesma descreve que não há sentimento ali parece apenas um parque temático, como se ela fosse uma turista. Posteriormente há cenas de um filme japonês que recria o horror da bomba atômica e mesmo assim é notório seu distanciamento com Hiroshima. Essas imagens são alternadas com os corpos e mãos dos personagens na cama, mesmo sendo uma cena que insinua um momento de intimidade entre o casal, os movimentos das mãos são vagarosos, cuidadosos, evidenciando novamente que há uma distância entre o estado de suas mentes.

Este começo se dá por um quarto do filme em que sedimenta a atmosfera da narrativa, os traumas de cada personagem e de Hiroshima, explorados e explicitados até o momento em que tanto personagens quanto a cidade são obrigados a evitar. E, não por acaso, todos os traumas envolvem morte. Morte do amor, morte da família e morte da humanidade.

Tudo que presenciamos no filme, se trata da memória dos personagens. Do corpo e almas marcados por tragédias, da memória que persiste em não querer se apagar e todos esses aspectos só os trazem ainda mais próximos durante a narrativa. Enquanto a atriz tenta absorver as consequências do ainda recente ataque sofrido por Hiroshima e seu próprio trauma vivido na Segunda Guerra Mundial, o arquiteto sussurra “eu creio que eu te amo”.

E contar essas memórias é uma maneira de esquecê-las.

“É preciso evitar pensar nas dificuldades que o mundo nos apresenta algumas vezes. Senão, ele se tornaria irrespirável”, diz a atriz francesa no último ato do filme onde a própria história de amor com o arquiteto japonês se transformaria em memória e, posteriormente, seria esquecida.

“Seu nome é Hiroshima.
E o seu é Nevers, na França.”