Gwinevere


The Wave, 1895 – Guillaume Seignac

 

por Jamesson Buarque

Eu sou rainha, se não fosse, seria
Eu exijo que as pessoas me arrodeiem
Eu não preciso de companhia
Eu não preciso ser aplaudida
Eu, quando desejo pessoas, elas vêm
Eu, se desejo, sou ovacionada
Eu decido a direção de minha vida
Eu destruo quem se opõe a minha direção
Eu somente saio do rumo se isso me diverte
Eu jamais me divirto pra fazer alarde
Eu, se decido me contradizer, faço alarde pra me divertir
Eu nunca sinto muito, minhas atitudes são políticas
Eu, se sinto muito, significa que senti demais
Eu não peço desculpas
Eu faço desaparecer quem me ofende
Eu jamais promovo exílio nem prisão
Eu, quando é o caso, somente promovo desaparecimento
Eu, se desapareço, retorno e causo susto
Eu gosto de surpreender
Eu não confio no calendário
Eu somente confio em mim mesma
Eu sei que o futuro não existe, melhora-se uma iguaria, não o mundo
Eu vejo insatisfação em tudo, eu mesma insatisfeita
Eu, quando me insatisfaço, subverto o palácio
Eu sei que o povo não merece o mundo que existe
Eu ainda vou extirpar do povo o mundo existente
Eu sou muito denodada, e se desisto, escolho
Eu jamais estou errada
Eu não sou cínica nem ardilosa, sou precisa
Eu, como sou resolvida, sei que sou necessária
Eu sei, não há fracasso em mim, logo, desconheço culpa
Eu, se acaso tentarem me punir, não me rendo
Eu sou acima das armas
Eu não penso em calar a cavalaria
Eu ainda usarei a cavalaria contra ela mesma
Eu sei que me vigiam, mas somente porque deixo
Eu sei que desejam me punir, mas isso é impossível
Eu sou mais bela, mais inteligente e mais decidida
Eu decido que me acuem pra reformar a justiça
Eu sou justa, logo, não falho
Eu amo porque eu quero
Eu não deixarei de amar porque isso é um equívoco
Eu jamais me equivoco
Eu quem escolhi Arthur, o contrário nem é lenda, é mentira
Eu não vou deixar Arthur
Eu decidi amar dois
Eu não sou adúltera
Eu decido quem adultera
Eu não sou louca
Eu determino que se me chamam de louca, cometem crime
Eu decido o que significa a falta de senso
Eu jamais perco a razão
Eu não vou delirar à espreita de Lancelot
Eu não vou desistir de nada
Eu sei usar cama, poltrona e trono
Eu não admito imprudência, sou prudente sempre
Eu não passarei de um a outro feita carta de baralho inglês de naipes francês
Eu não passo nem passarei, o estado passará
Eu não sofro de vertigem
Eu posso me equilibrar à beira dum precipício
Eu não tenho parte com Hipodâmia nem Andrômaca
Eu não terei o destino de Nausicaa nem de Dido
Eu não vejo razão no suicídio, e se houvesse, eu ditaria
Eu não vou me matar
Eu, se Lancelot me deixa na caverna, não surto
Eu transmito histeria, não sofro
Eu desconheço qualquer forma de sofrimento
Eu, se Arthur decide ir à guerra, não discuto
Eu, porque detenho a sabedoria, desconheço necessidade de discussão
Eu sei jogar com decisões, eu controlo o tabuleiro
Eu sei que a Távola Redonda é minha
Eu sei que se mais távolas houvesse, seriam minhas
Eu tenho muito interesse no estado
Eu tenho bastante interesse na queda do platô do Planalto Central
Eu, depois de derrubar o estado, baterei palmas
Eu, quando bato palmas, aplaudo a mim mesma
Eu sou comigo em absoluto
Eu absolutamente me basto
Eu sei beber, comer, dormir e pensar sozinha, não preciso de ninguém
Eu determinei que as pessoas que me interessam cabem nas palmas de minhas mãos
Eu, se ficar solitária, o estado cairá
Eu sei que o estado cairá quando eu decidir
Eu derrubarei o estado com o desgosto de minha solidão
Eu decidi me desgostar apenas pra derrubar o estado
Eu sei que o povo não merece o estado que tem
Eu não tenho dúvida que domino tudo
Eu domino, sou magra, se fosse gorda, eu dominaria também
Eu tenho o corpo conforme decido
Eu faço o que eu quero com meu corpo
Eu não sou canhestra nem tacanha
Eu, se quisesse, deteria a magia de Merlin
Eu, se quisesse, não deixaria Morgana dominar a magia
Eu deixo Morgana ser maga excelsa porque é mulher
Eu sou erudita
Eu escrevo melhor do que qualquer homem
Eu, se quisesse, seria rústica
Eu gosto de rusticidade espontânea
Eu sei que espontâneo em ser rústico é o povo
Eu admiro o povo
Eu desprezo a cavalaria
Eu esgrimo melhor do que os cavaleiros de Arthur
Eu determinei que Arthur detivesse a liderança
Eu não quero ter o trabalho de liderar
Eu detenho a ordenação dos dias
Eu, inclusive, determino quais podem ser os dias do rei
Eu sou quem sou e não preciso me justificar
Eu sou mais destemida do que Lancelot
Eu não sou idiota como Tristão
Eu sei amar sem medo de fingir
Eu sei fingir sem precisar amar
Eu não tenho medo de nada
Eu demandaria ao Santo Graal, se ele existisse
Eu, se fosse Isolda, não seria ludibriada pela homônima, a das Mãos Brancas
Eu, se fosse Isolda, não morreria de tristeza
Eu jamais seria nem serei ludibriada
Eu jamais morrerei
Eu não sou triste nem serei jamais
Eu consigo enganar, e não me faço de rogada
Eu, se me flagrarem num engano que articulei, não minto
Eu não minto, a não ser por desígnio
Eu jamais serei flagrada
Eu jamais serei vítima do que for
Eu não preciso de medicamentos
Eu não preciso de terapia
Eu não preciso de treinamento, nasci pronta
Eu consigo fazer amor e foder
Eu sei trepar inclusive sozinha
Eu admiro, respeito e gosto de minha boceta
Eu tenho quadris largos, mas não vou parir jamais
Eu jamais deixarei o estado de herança a alguém
Eu farei outro estado
Eu sou a verdade