Gilka Machado e os primeiros versos do prazer

por Jamyle Hassan Rkain

A primeira mulher a publicar poesia erótica no Brasil volta ao mercado em edição especial pelo selo Demônio Negro

“Quem foi a primeira mulher brasileira a escrever poesia erótica?” foi a pergunta que me fiz quando tinha por volta dos 13 anos. Àquela altura, já sabia o mínimo sobre mulheres na literatura e queria, de alguma forma, saber quem tinha sido a precursora do erotismo. Em alguns minutos de pesquisa pela internet, encontrei um nome. Era Gilka Machado.

O questionamento foi respondido, mas não era o suficiente. Não depois de ler um pouco mais sobre essa figura que é, sem dúvidas, uma das mulheres mais importantes da História do Brasil. A História, no geral, está cheia de pessoas valiosas que foram esquecidas. Afirmo, com certa segurança, que a grande maioria dessas pessoas são mulheres. Me arrisco a segmentar isso um pouco mais: a grande maioria dessas pessoas esquecidas são mulheres negras.

Eleita “Maior Poetisa do Século”, segundo plebiscito da revista O Malho, em 1933.
Crédito: O Malho | Biblioteca Nacional

Disse isso para começar a falar sobre Gilka, uma mulher negra que ousou desafiar a sociedade patriarcal do começo do século XX, recém-“saída” do período escravagista. Saída entre aspas pois sabe-se que, infelizmente, o racismo não acabou com uma canetada. Nasceu em 1893, no Rio de Janeiro. Ironicamente, Gilka começou a mostrar seus poemas para o mundo com a mesma idade que eu tinha quando a conheci, inspirando-se em Hermes Fontes. Aos 13 anos, se inscreveu com alguns poemas em um concurso de um jornal intitulado A Imprensa. O tal concurso premiaria três peças: Gilka ganhou os três prêmios, com sua assinatura e também com pseudônimos.

Um escândalo. Uma moça de 13 anos havia ganhado os três lugares de um concurso com poemas… eróticos. Sua produção continuou ao longo da adolescência, desafiando a tudo e a todos que poderiam tentar intimidá-la. Quatro anos depois, descobriu outra paixão que seria tão impactante quanto escrever versos cheios de desejo. Descobriu o movimento sufragista feminino. Apesar de, no Brasil, o voto ter sido concedido à mulher apenas em 1932, já havia luta por isso muito antes. Foi em 1910, ao lado de Bertha Lutz e outras figuras importantes, que Gilka fundou o primeiro partido político dedicado às mulheres, o Partido Republicano Feminino, onde exerceu o cargo de primeira secretária.

Apesar de também ser uma afronta à moral da época, sua atuação política não foi tão marcante quanto sua atuação literária. Publicou o primeiro livro apenas em 1915, ao qual deu o nome de Cristais Partidos. Volúpia, orgia, luxúria, gemido, gozo. Palavras recorrentes nos versos dos poemas que incorporavam o primeiro livro. Escândalo. Não era possível que uma mulher tivesse coragem de tal disparate. Chegaram a pensar que era o marido, o jornalista e também poeta Rodolfo Machado – com quem se casou cinco anos antes -, quem escrevia e usava Gilka para assiná-los.

Três anos depois, publicou o segundo livro, Estados de Alma. Os burburinhos sobre ser uma impostora continuaram. Só em 1923, quando Rodolfo morreu e ela lançou o título que mais chocou o público e a crítica, Mulher Nua, essa teoria foi por água abaixo. A partir de então, foi publicando outros títulos e desafiando quem falasse mal dela. Fora acusada de ser a responsável pela devassidão das jovens da sociedade carioca e teve, para o resto da vida, a alcunha de “matrona imoral”.

Com Rodolfo, teve dos filhos, Eros e Helio. A menina tornou-se, mais tarde, uma das mais famosas bailarinas do Brasil, talvez até mais conhecida do que a própria mãe no meio artístico. Viúva e com dois filhos pequenos, Gilka tornou-se a figura da mãe que faz qualquer coisa para conseguir manter as crias. A literatura nunca fora uma opção para ganhar a vida e, por mais que fofoqueiros levantassem a hipótese de que ela se prostituia para dar de comer às crianças, isso nunca aconteceu.

A verdade é que a crueldade da crítica literária e do povo em si para com Gilka fez com que ela nunca conseguisse um trabalho considerado “digno” pelos que a olhavam com desprezo. Assim, fora trabalhar como faxineira em uma estrada de ferro. Anos depois, com alguns trocados emprestados por amigos e pela filha que já se tornava bailarina reconhecida, abriu uma pensão no Cosme Velho, na qual acolheu grandes poetas e figuras da literatura da época. Cozinhava para os hóspedes ilustres, enquanto escrevia seus versos e cantarolava boleros.

Negra, o racismo não lhe deu trégua. A sensualidade de seus versos fez com que alguns, como Humberto de Campos, mencionassem uma tal “mentalidade crioula” como motivo de suas “rimas cheias de pecado”. Outro crítico, Afrânio Peixoto, referiu-se a ela como “mulatinha escura” ao narrar um esquisito encontro que teve com a poeta.

Foi indicada em alguns concursos no decorrer de sua vida. Em 1933, a revista O Malho lhe deu o título de Maior Poetisa do Século. Dois anos depois, ficou em segundo dos cinco lugares reservados para as mulheres que mereciam estar na Academia Brasileira de Letras, caso a instituição abrisse vagas femininas. Quando isso realmente aconteceu, em 1977, negou a candidatura, apesar de ser incentivada por grandes figuras, como Jorge Amado, que considerava a obra dela uma das “mais importantes da língua portuguesa”. De fato, é a maior poeta simbolista brasileira. Um ano antes, havia perdido o filho em um acidente de carro, o que desencadeou um processo depressivo em Gilka, que já tinha sofrido com tanto ao longo dos anos.

Morreu em 1980, aos 87 anos. Suas poesias completas foram lançadas duas vezes, em uma edição feita pela própria, dois anos antes de falecer, e em outra edição em 1993, para comemorar o que seria seu centenário. Ambas tiveram tiragens pequenas, reservadas a colecionadores. Após isso, a filha Eros guardou os direitos autorais a sete chaves. Parecia querer preservar Gilka de continuar a ser vista como uma maluca devassa. Com a morte da dançarina, os direitos foram deixados com Amaury Menezes, único neto da poeta, filho de Helio.

Algumas das primeiras edições de livros da autora, preservadas pela família em acervo
Crédito: Jamyle Rkain | Acervo da família

Um mês antes de falecer, em agosto de 2015, sentei com Amaury em sua chácara na Ilha de Guaratiba. No meio da conversa que intencionava saber mais sobre sua avó para um artigo que eu escrevia, me pediu que cuidasse da obra de Gilka e fizesse o projeto de reedição de sua obra completa. Aceitei, cheia de alegria e honra. O projeto se transformou no livro Poesia Completa de Gilka Machado, que sai ao final deste janeiro de 2017, aos cuidados do magnífico selo Demônio Negro. Uma plaquete com sua prosa, a conferência A Revelação dos Perfumes, também será preparada para este ano.

Apesar de confrontada pelos machistas de plantão, sendo marginalizada pela imprensa e afastada dos livros de História e Literatura, foi mentora de todo o erotismo feminino da literatura brasileira. Em O Caderno Rosa de Lori Lamby, Hilda Hilst evoca Gilka ao dar seu nome à tia de Lori que era sua tutora. Alice Ruiz contou, ao saber da reedição da obra, que teve uma deliciosa conversa com a precursora ao telefone. Até mesmo homens foram inspirados por ela, como Nelson Rodrigues que, por mais bravo que tivesse ficado por Gilka não lhe conceder a mão de Eros em casamento, não podia negar que tinha algo da poeta em si.

“Poetou sobre o desejo da mulher, o tesão pelo homem, o amor sem peias quando as outras reservaram o coito para os confessionários das igrejas: ousou quando a ousadia significava discriminação, repulsa, abjeção. Sugeri que as prováveis candidatas assinassem manifesto propondo aos Acadêmicos o nome de Gilka Machado: mais que outra qualquer merecia ser a primeira mulher a ingressar no fatal cenáculo.”
Jorge Amado sobre Gilka Machado, ao defender sua entrada na ABL, em 1977.

 

SERVIÇO
Poesia Completa de Gilka Machado, organização de Jamyle Rkain, prefácio de Maria Lúcia Dal Farra e notas críticas de Heloisa Buarque de Holanda, Nadia Gotlib e Jarid Arraes.
Para adquirir o livro, acesse: fb.com/LivrariaDemonioNegro