Gigolô Americano


Cena do filme “Gigolô Americano”, 1980

 

por Leandro Peska

Em sua elétrica abertura “Gigolô Americano” (American Gigolo, 1980) apresenta uma paleta da vida de Julian Kay, o acompanhante de luxo interpretado por Richard Gere. Enquanto ele corta a costa de Malibu em seu carro de luxo ao som de “Call Me” da banda Blondie, o filme lentamente se encaminha para um conto de fadas com sexo – sexo como uma comodidade, como uma maneira de viver, como uma maneira desesperada de se conectar com outras pessoas.

As experiências no filme podem soar estranhas, mas as emoções dos personagens não; Julian Kay de Richard Gere é carinhoso e vulnerável, criando uma conexão dele com o espectador.
Seu negócio, transar com mulheres ricas mais velhas, proporciona sua Mercedes, seus caros trajes e entrada garantida nos clubes sociais da alta sociedade, o que em Beverly Hills é usado para medir sucesso de uma pessoa. Mas Julian diz que está nesse tipo de negócio por razões além do dinheiro e o espectador acredita. Ele afirma sentir uma certa satisfação quando faz uma mulher de meia idade alegre. Julian se vê em uma linha tênue entre um acompanhante de luxo e um terapeuta, e é assim que o filme o apresenta, mesmo sendo um acompanhante de luxo ele continua a ter um bom coração. Com foco nesse ponto o filme torna o personagem de Julian Kay tão carismático que o espectador o perdoa por sua escolha de profissão. Esta tática usada pelo diretor Paul Schrader faz uma homenagem à “O Batedor de Carteiras” de Robert Bresson, filme em que transforma um criminoso em anti-herói.

Depois de ser acusado de assassinar uma socialite, Julian tenta descobrir quem o incriminou se aprofundando no mundo underground do sexo de Los Angeles.

Como um todo o filme tem uma notória tristeza incorporada: excluindo o aspecto dramático da trama o que se tem é um estudo da solidão e toda atuação de Richard Gere é central para esse efeito. Algumas das cenas em que Julian lê o jornal matinal, reorganiza algumas pinturas, escolhe o que vestir pincela o vazio que é sua vida.

“Gigolô Americano” apresenta uma estética mais comercial com uma história de arco fechado, mas não se pode deixar de refletir sobre um aspecto implícito do filme: será que se as mulheres de meia idade não pagassem para que Julian transasse com elas, ele não as pagaria? Julian precisa de conexão humana e sua característica de tímido solitário torna mais fácil que ele aceite amor como apenas mais um tipo de transação financeira.