Fazendo o serviço bem feito

por Andri Carvão

ELE – e aí? tudo bem?

ELA – tudo. e você?

ELE – melhor agora!

ELA [“humm!”, pensou.] – quanto tempo você tem de empresa?

ELE – sete anos. e você?

ELA – três.

ELE – ah, calça branca ainda. um feto!

[risos]

ELA – posso te fazer uma pergunta?

ELE – duas!

[risos]

ELA – faz tempo que quero te perguntar.

ELE – digue.

ELA – você é todo branquinho?

ELE – todo branquinho.

ELA – puxa! adoro branquinhos… e você tem cabelo no peito?

ELE – nada. dois pra lá, dois pra cá.

ELA – humm.

[até onde vai isso? e ela fala com a maior cara deslavada, sem deixar de prestar atenção em seu serviço. quem olha de longe vê dois colegas de trabalho tratando sobre assuntos pertinentes ao ambiente de trabalho. mas vamos lá: solta a corda.]

ELE – mas por que você tá me dizendo isso?

ELA – sabe o que é, neném?

ELE – [humm, “neném”.] sei.

ELA – sabe?

ELE – não. quer dizer, não sei. [trapalhão.]

[risos]

ELA – é que eu moro sozinha…

ELE – [“humm”, todo concentrado.]

ELA – …e à noite eu deixo a janela da sala entreaberta pra circular o ar…

ELE – ãrram.

ELA – …tem grade na janela…

ELE – certo.

ELA – …aí o vento balança a cortina… [olhando dentro dos olhos dele]… e eu fico com medo.

[pausa solene. violinos.]

ELE – e você mora aonde, meu anjo?

ELA – [humm, “meu anjo”.] na zona portuária.

[tarde da noite]

ELA – eu gosto de chupar e ser chupada. eu gosto de ficar por cima, de dominar.

ELE – sou todo seu, linda. seu servo, seu escravo.

ELA – gosto de quatro.

ELE – [simula espanto.] quatro homens?

ELA – nããão. [ri pensando na possibilidade.] dar de quatro, bobinho. hahaha! ai!

ELE – aahhh, tá! [fazendo de desentendido.]

ELA – só consigo gozar de quatro.

ELE – uuhhh! [choro de bebê vindo de outro cômodo da casa.] você tem filho?! criança?! você não tinha falado que morava…

ELA – deixa chorar. vem cá, meu escravão!

ELE – não. nãão. nã. peraê! cê falou que morava sozinha. é seu filho?

ELA – magina! só tô cuidando dela.

ELE – mas como, se a gente acabou de sair do serviço?!

ELA – tá, seu chato! desse jeito vai acabar cortando o clima. é minha filha, pronto! tá contente agora?

ELE – sua filha? bebê? então você é casada?? ?

ELA – não, meu. um rolo aí.

ELE – que rolo, menina?!

ELA – [“menina?!”] o pai tá preso.

ELE – preso? cê é louca?! ah, meu deus, tô frito!

ELA – esquenta não. ele não precisa ficar sabendo. vem cá!

ELE – mas alguém pode ter me visto entrar aqui com você!

ELA – relaxa… e se viu também, qual é o problema?!

ELE – “qual é o problema?!” nossa! você é muito sossegada! pode cair no ouvido dele, daí eu tô fudido!

ELA – como você é cuzão! o cara tá preso. PRE-SO! [fazendo sinal de jogo da velha cruzando os dois dedos de cada mão.] entendeu ou quer que eu desenhe?! se eu soubesse que você era tão cagão…

ELE – os caras têm celular na cadeia. de lá manda matar em dois palitos. [vestindo a primeira perna da calça.] vou embora! sai fora, meu! tava bom demais pra ser verdade. quando a esmola é demais…

ELA – ah é?! então quer dizer que você não vai segurar o rojão?! começou, agora termina! ou vai me deixar aqui na mão?! [começa a bater siririca.]

ELE – [está tão apavorado – o bebê aos berros – mesmo que fosse prédio, acho que saltava. vai até a porta: trancada. volta. vê a chave apertada entre os seios dela. não resiste. tá no inferno, abraça o capeta.]

OS DOIS – trepa trepa trepa humm pau pau pau chupa chupa assim assim isso assssiiiiiimm mete mete mais enfia tudo nessa porra ai ahh caralho gostoso a porra toda vai vai vaaaii mais mais eu quero mais enfia enfia tu-dooo não pára não caraiôôô puta queu pariu vai se foder tomar no cu buceta gostosa da porra aahhh aahhh aaaaaaaaahhhhhhhhhhhhh

ELE – [fica estrebuchado na cama.]

ELA – [levanta e vai dar atenção pro neném.]

ELE – [dá uns cinco minutos nele, levanta, vai até a sala, um frrrio, olha lá fora, a rua escura, nem alma penada, fecha a janela, limpa o pau na cortina e vai no banheiro. olha pro vaso mas mija na pia. fita o espelho oxidado do gabinete.] filha da puta!