Confissões

por Genio Nascimento

Um dia, acho que teremos intimidade ou estaremos bêbados o suficiente pra eu te contar detalhes da minha vida.

Vou te contar, por exemplo, que meu primeiro beijo foi uma aposta que a menina perdeu para as amigas. Que fiquei feliz até descobrir que eu era a punição.

Que minha primeira vez foi com uma garota bem mais velha que tinha uma perna mecânica. E que, pra piorar, a perna não dobrava. Que tivemos que fazer muito malabarismo pra acontecer alguma coisa naquele sofá. Mas que eu saí dali preparado pra qualquer oportunidade da vida.

Se o papo estiver bom, posso te contar que nunca tive muitos amigos. Sequer imaginários. E que, um dia, voltando da praia, beijei a garota que meu melhor amigo gostava. Que isso nos afastou para sempre. E que tempos depois eles se casaram, mas que eu não fui convidado.

Segredos que nunca contei pra ninguém, como o fato de a tatuagem da minha perna formar o nome de uma mulher, que hoje deve estar casada, ter filhos e morar em algum lugar entre Manaus e a Austrália. E que nunca a cobri ou apaguei porque também significa um monte de outras coisas para mim.

Que eu tento parecer moderno, mas que minhas experiências sexuais são tão banais como qualquer cidadão médio de qualquer periferia do mundo. Que a única situação que eu poderia chamar de “aventura” envolve a esposa de um amigo e todo o sigilo que isso acarreta. Que nos agarramos no banheiro, enquanto o marido dormia bêbado na sala, em uma tarde morta de natal.

Que se eu pudesse voltar no tempo, mudaria umas duas ou três situações apenas. E que viveria todo o resto exatamente como aconteceu.

Mas agora, aqui, eu só queria te dizer que quando você deitou a cabeça no meu peito eu me esqueci de todas as vezes que a vida me sacaneou. Que foi quase como se soasse o gongo e eu tivesse um minuto para respirar, antes de voltar para o meio do ringue e recomeçar a tomar porradas.

Mas isso eu posso deixar pra dizer amanhã, quando você acordar.