Aquática

por Mar Becker

I

abismo. a voz, suspensa

no azul. as muitas vozes. a orquídea sobe pelos tornozelos da mulher arquetípica, enrola-se às suas pernas

nos arredores a água volta-se mais uma vez às antigas dedicações do mundo

quando os peixes vascularizavam o espaço
quando os peixes entravam vascular e prodigiosamente também no interior das pedras e do fogo

mulher, às três da manhã olharei pela janela
e pensarei em teus cabelos. a esta mesma hora outra mulher estará em seu próprio quarto costurando uma camisola branca, infinita

[poderíamos dizer que ela está ali desde sempre. é uma mulher arquetípica, como todas as que costuram]

[e por causa de sua mudez se parece
com a eternidade]

todos os quartos às três da manhã estarão abertos
todos os cabelos terão crescido prodigiosamente
todos os sonhos serão o mesmo

e apesar do vento, do barulho da agitação das folhas nas copas das árvores, dos assovios nas frestas das janelas

apesar disso, verei os cabelos se movimentarem lentamente, muito lentamente, como se estivessem sob o domínio de outra força gravitacional — [como se por alguma razão as leis em que orientam a vida espaço-temporal dos cabelos das mulheres fossem as mesmas que orientam a vida da água]

mulheres com o mar invisível na cabeça, desde a raiz até as pontas dos fios, fundas, tão fundas

*