Afora a potência estancada no quadril | Pequenas maldições

Afora a potência estancada no quadril
Ana Farrah Baunilha

Afora a potência estancada no quadril
Minha força é concentrada na mandíbula
Tenho o ímpeto maior na mordedura
Já sangrei três homens até hoje
não os matei
(embora um deles talvez eu mesmo devesse tê-lo atado).

Minha arcada profusa ocupando todo o largo
no maxilar de um neandertal, além da voracidade
a eficiência brutal da mastigação e essa
mania de morder sem medir o tamanho da presa
é gana de ocupar a boca, uma fome ancestral de
engolir tudo e disfarçar com a falsa candidez
essa minha fase oral tão mal resolvida

 

Pequenas maldições
Ana Farrah Baunilha

preciso de ombros pra chorar
quarentenas e novenas,
velas, carolas carpideiras
exorcismo e fogueira
tamboreiro e tambor

um banho de ervas, incensos
bonecos de vodu
preciso hoje mais do que nunca
de ouvidos abertos e mais
do que abraços,
suruba e feitiçaria

beijo triplo, assassinato, vingança
um carpete todo
manchado de sangue
sacrifício e tortura violenta

preciso hoje machucar alguém

é da minha natureza
choramingar as perdas
e mais que chorar,

acreditar que sou perigosa rogando pragas