A bela é a fera

por Edson Valente e Lilian Sais

Bela, arrojada e ímpar, a escritora paulistana Marcia Denser, conhecida por suas personagens femininas fortes, traz na bagagem quatro décadas de uma intensa produção literária que vai muito além do simples erotismo. Da publicação de seu primeiro conto, “Tango fantasma”, em 1976, até hoje, Denser já lançou 2 romances, 5 livros de contos e novelas e 1 de crônicas, participou de dezenas de antologias e foi amplamente aclamada pela crítica, além de já ter sido publicada em mais de dez países. Tendo a ousadia e a assertividade como marcas registradas, nessa entrevista, realizada em uma mesa de bar, ela nos conta um pouco sobre seu presente, seu passado e seu futuro – sem papas na língua, como não poderia deixar de ser.

É verdade que seu melhor conto foi escrito em uma mesa de bar?

Em 1977, eu trabalhava na Fiesp, em São Paulo, na praça Dom José Gaspar, exatamente em cima do Paribar. Então não tinha como não sair para beber. Esse conto se chama “Relatório Final”. Eu ia escrevendo nos guardanapos da televisão [porta-guardanapos retangular]. Ao final, usei três televisões. E olha que engraçado, eu jamais consegui mudar uma vírgula desse conto. Juntei todos os guardanapinhos e passei à máquina, que nem era elétrica naquela época. É um dos meus melhores contos. Ele quase não tem pontos finais e é analisado como uma construção em abismo. Eu escrevi durante umas duas ou três horas sem parar.

Essa construção em abismo foi deliberada?

Eu não trabalhei em cima do conto, ele saiu pronto. São esses contos sobre os quais o Cortázar fala, de ter que exorcizar aquilo como se fosse um bicho. É uma obra que tinha que ser exorcizada, precisava sair. É o mesmo caso de “Memorial de Álvaro Gardel”, sobre a morte de meu pai. Em 97, meu pai estava morrendo, na madrugada do dia 28 de maio. Papai nasceu no dia 29 de maio, ele morreu na mesma data em que nasceu. Eu comecei a escrever na hora em que ele estava agonizando. Eu escrevi num caderno, durante horas. Quando meu pai morreu, fechei aquele caderno. Dois anos se passaram, fui rever o texto e o conto estava pronto, foi só passar para o computador. Durante dois anos eu não consegui olhar para o que eu tinha anotado, porque iria doer demais. Eu escrevi toda a agonia do meu pai no decorrer daquelas horas. E também não consegui mexer em nada nesse conto. Ele saiu perfeito, só que demorei para conseguir a ler o texto. A dor precisou passar.

Você deu dois exemplos de literatura como exorcismo, mas ela não é sempre assim.

Escrever conto é como um exorcismo.  Contos têm muito a ver com obsessões. Um exemplo é meu conto “Polaris”, que está em “Toda Prosa”. Ele apareceu quando eu estava obcecada, apaixonada por uma pessoa. Geralmente surge quando você está apaixonado. O conto é sugerido pelo inconsciente e tem a ver com uma integração com o eu pessoal.

E como você difere esse processo do romance?

Posso comparar com as minhas memórias, que escrevo premeditadamente. Vou escrevendo conforme me lembro, o processo é outro. Tem uma coisa que acontece com a gente, depois de 40 anos, incorpora-se a criação à técnica. Hoje quando escrevo o texto sai pronto. No começo da carreira, eu reescrevia muito, como num capítulo de “Ponte das Estrelas”, em que 300 Cascarões – a guarda real –, fugindo do dragão, começam a correr desesperadamente até saltar das escarpas sobre um navio no meio do oceano. No texto, eu tenho de fazê-los correr pelo reino de uma forma que você sinta que eles estão desesperados. Quando você começa a correr sem obstáculos, sem ver onde você vai parar, é essa a sensação que eu precisei dar, então resolvi não usar vírgulas. Para atingir objetivos assim, às vezes é preciso reescrever 70 vezes um trecho. Isso é puramente mental, é premeditação total. Diálogos também são complicadíssimos de fazer. Existe um conto meu chamado “Ladies First”, em que há o que chamo de poliálogo com referencial. São cinco pessoas conversando em um bar. Menciono só o nome de cada uma no começo e as deixo falar, sem mais indicações de diálogo, como no teatro. Deu um trabalho desgraçado pra fazer soar natural. Quanto mais naturalidade exige o diálogo, mais trabalho de edição.

De qualquer forma, a tua escrita no universo feminino foi política em um sentido de libertação, não?

Sim, no viés da mulher como sujeito. Naquele tempo, a mulher escrevia muito bloqueada. Ela não podia falar das emoções tampouco de sexo, não existia isso. E foi algo que não fiz deliberadamente. Foi algo intuitivo.

E como a crítica recebeu esse teu modo de escrever?

Muito bem. Eu tive a crítica do meu lado desde o começo. Eu escrevia muito e lia bastante, era formada em comunicações, mas não tinha uma cultura mundana muito aprimorada. Eu era mais poeta, mais uma escritora mesmo, que fazia isso por talento. É o gás que a gente fala – eu era gás puro. Mas a gente começa a ter uma maior consciência do mundo depois dos 40 anos.

O escritor Marcelo Mirisola disse que considera você a melhor escritora brasileira depois da morte da Hilda Hilst. Você concorda com ele?

Concordo absurdamente. Até porque a Hilda é maravilhosa, mas extremamente complicada; sou uma escritora que faz outras aberturas estéticas que a Hilda não propicia.

Quais são os ícones e as grandes farsas da literatura brasileira contemporânea?

Não tem farsa na literatura brasileira. Ou o cara é ou não é. Os pontos altos são Mirisola, João Gilberto Noll, um tremendo escritor. Rubem Fonseca, independentemente do que ele produza agora, ele já tem uma grande obra, poderia quebrar o lápis e parar. A Lygia Fagundes Telles teve grandes momentos. Dos mais contemporâneos, o Mirisola e o André Sant’Anna têm um grande trabalho de linguagem.

Como você avalia o mercado literário hoje no Brasil? Temos eventos como a Flip, grandes prêmios patrocinados. Como vê tudo isso?

Isso não significa nada para o escritor. Se alguém tiver que ser escritor, independentemente dos prêmios vai aparecer. Prêmio não incentiva escritor nenhum, só funciona para uma certa casta de autores se autopromoverem e fazerem oba-oba. Os autores que vão de fato permanecer o fazem independentemente de qualquer prêmio, festa e o escambau literário. Os verdadeiros autores são reconhecidos por outros autores. No caso do Mirisola, o último de que me recordo, ele foi indicado pelos outros escritores dos anos 90, como Nelson de Oliveira e Marcelino Freire. Eles disseram para mim: “Olha, tem um grande cara aparecendo, um grande escritor”. A partir desses toques, li o Mirisola, e ele era absolutamente novo, você não podia imaginar alguém escrevendo como ele. São os outros escritores que avaliam um escritor.

Então a figura do crítico literário praticamente não existe mais?

Ela deixou de existir há muito tempo, e os outros escritores ocupam o seu lugar. Isso é péssimo para a literatura. Sem a crítica, a criação cai no esquecimento.

O grande escritor tem que ser, em alguma medida, maldito?

O mainstream gosta do escritor bonzinho, que sabe se produzir. O Mirisola não sabe. Por isso ele não dá certo com as panelas literárias. O mainstream gosta dos medíocres, de gente ruim, aqueles que são facilmente manipuláveis.

O que você tem lido ultimamente?

Tenho lido muito os teóricos, ensaístas. Paulo Arantes, Roberto Schwarz. São meus grandes autores da atualidade, talvez mesmo por causa dessa questão da consciência política. Eu preciso ler brasileiros e preciso ler pensadores. E mulheres. Preciso ler Susan Sontag.

Como surgiu a ideia do seu Estúdio de Criação Literária?

Minha ideia era procurar autores novos, talentos novos. Eu queria saber onde é que eles estavam. O Estúdio começou em 2014. Tem sido muito gratificante descobrir novos autores. Tem um pessoal “dez” aparecendo, os futuros escritores.

Além do estúdio, quais são seus outros projetos literários? Está escrevendo suas memórias? Por que agora esse projeto?

Veja bem, eu acho que sou uma das primeiras a produzir autoficção ao escrever na primeira pessoa. Desde “Tango Fantasma”, a primeira pessoa está ali, e era o ano de 1976. “Desmemórias” é a autoficção da minha vida. OU seja: a vida só faz sentido quando vira ficção, porque escrevemos memórias para dar um sentido à própria vida, turbulenta e caótica.

Conte-nos alguns dos bastidores tórridos de suas memórias.

Posso citar o meu caso com o Raduan Nassar. E fui namorada do Lobo Antunes.

Você relê você mesma enquanto está escrevendo?

Leio demais. Eu me adoro, eu me amo, eu me convido pra jantar.

Como funcionam as influências literárias em seu processo criativo?

As leituras que me influenciam não aparecem imediatamente em minha literatura, elas ficam embaixo, subterrâneas. Tenho minha própria voz desde o primeiro livro. A gente assimila vários estilos, mas precisa ter voz própria. Há momentos em que parafraseio Cortázar, mas isso é diferente.

Que conselhos você daria para quem quer se tornar um escritor?

Em primeiro lugar, tem que ler muito. Ler todo o Cortázar, todo o [Jorge Luis] Borges, todo o Machado [de Assis], o [William] Faulkner. Ou aqueles autores que constituírem seu paideuma [segundo Ezra Pound, a ordenação do conhecimento de modo que o próximo homem ou a próxima geração possa achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos].

Você acha que o brasileiro lê pouco? Lê o suficiente?

Acho até que o brasileiro lê bastante, mas precisa comprar livros. É preciso TER livros, formar uma biblioteca. Aliás, a respeito disso sou a favor do preço único, todos os livros terem o mesmo preço.

Fale um pouco a respeito de sua carreira no exterior.

Eu comecei a publicar no exterior com as antologias “Muito Prazer” e o “Prazer é Todo Meu”, de contos eróticos femininos. Lançadas aqui em 1982, elas venderam cerca de dez edições e chamaram a atenção lá fora. Em 1984, eu comecei a ser agenciada pela Ray-Güde Mertin, falecida em 1997. Desde 2015, sou agenciada pelo Stephane Chao. Com a Ray-Güde, publiquei na Alemanha em 1988. Ainda em 90, publiquei na Suíça, na Holanda, nos países do leste europeu, na Rússia. Em 2002, 2004 e 2005, de novo em países do leste europeu, Bulgária e Hungria, com o apoio do Itamaraty. Também na década de 90 publiquei em três antologias nos Estados Unidos.

Você acha importante a internacionalização de uma obra?

Muito. Mas, se o Brasil continuar como está, não tem como internacionalizar a obra do autor brasileiro. Hoje, nossa participação em salões como o de Paris se restringe a um grupo de amigos cujas obras ou livros não têm nenhuma relevância no Brasil, salvo para esse grupinho de pessoas.

Você foi muito identificada com a literatura erótica. Isso te incomoda?

É literatura, ponto. Eu não faço “literatura erótica”. Isso existe?

Você acha que é uma necessidade do mercado rotular e segmentar a literatura dessa forma?

De certa forma. Desde o primeiro momento, quando publiquei “Tango Fantasma”, o mercado me colocou como autora erótica. Para vender, é claro.

Esse rótulo te trouxe algum benefício ou só encheu o saco?

Só encheu o saco. Nenhum benefício.

Há uma diferenciação entre o texto erótico e o texto pornográfico, não?

O pornográfico aumenta a sujeira, e o erótico areja. Mas hoje em dia essas definições não fazem mais sentido, porque o sexo é liberado. Nos anos 80 isso era importante. A diferenciação entre erotismo e pornografia não existe mais hoje em dia.

Seus personagens refletem aspectos da vida nos anos 1980?

Não porque meus personagens não são datados. Eles são atemporais.

Como você se descobriu escritora?

Foi algo visceral, eu precisava fazer aquilo. Eu escrevia enquanto minha mãe e meu pai brigavam. Aos 17 anos, na minha cabeça, eu era o máximo como escritora. Eu mandava obras para pessoas da imprensa. Eu me achava o máximo absoluto e ao mesmo tempo não. Haveria um momento em que eu me tornaria uma pessoa importante, mas calma, ainda não era a hora. Eu tive grandes mestres, fui aluna do designer Alexandre Wollner, do Sérgio Ferro e do Décio Pignatari. Eu não entendia uma palavra do que o Décio Pignatari falava. Eu tinha 18 anos, era uma bobinha, nunca tinha lido nada além do “Pequeno Príncipe”.

E qual a força do feminino na sua literatura desde então?

Eu quero que o feminino se foda. Eu era mais importante que o feminino.

Mas o quanto tinha de você em suas personagens femininas?

Eu estava totalmente nelas.

Como se vê hoje, aos 67 anos?

Estou bem, sinto que sou uma escritora realizada, na medida do possível.


Marcia Denser (à direita, no meio) entre alunos de seu Estúdio de Criação Literária