A amante

A amante

por Sandra Werneck

Assim que a noite caiu na aldeia que beirava o rio, Manuelina não esperou a terra esfriar do calor do dia: ela se agachou, estendendo seu corpo rente ao chão, encostando a cabeça no solo para ouvir suas entranhas, sem se importar com o olhar do marido que se embalava na rede da varanda da casa, um pequeno cubículo feito de madeira, sem a perder de vista. Manuelina sentia a terra respirar, exalando do chão bafos quentes e úmidos que traziam os sons das feras da noite. Não era loucura dela, apenas medo. Medo de que a quietude da mata, que nunca era calada, trouxesse para perto de si um mundo de horrores. O marido se irritou:

“Deu para dormir no ventre da terra agora, Manuelina?”

“Compadre disse que tem uma onça rondando a aldeia!”

“Onça sempre teve!”

“Matam, comem e vão dormir com a barriga cheia, sem pena e sem culpa! Vamos embora daqui, Romualdo, vamos para a cidade!”

“A cidade é um lugar de cantos e recantos que põem a perder um homem! Aquiete, mulher, vá tratar de dormir!”

“Pois é a floresta que iguala todos aos animais. Eu te peço: vamos embora!”

‘Vai você, se quiser!”

Ela queria, mas para escapar de um lugar era preciso escapar de si, ser outra, sendo a mesma, e isso Manuelina não era capaz. Ela regressava ao leito, mas não dormia, vagava entre o sono e a vigília, com medo de ser morta, com medo de se perder num lugar que havia tempos não chegava estradas, notícias ou estranhos. Se rezava, era para achar uma terra que pudesse florescer, embalar sonhos, plantar sementes. O único filho que tivera nascera morto, tímido para enfrentar o mundo que ia se abrir. A mulher rasgou uma boca na terra para que esta engolisse seu rebento sem força de germinar e, agora, a terra secava sem gestar outra semente. A natureza tinha um mando silencioso, que dispensava palavra.

Ela se guardava assim, imobilizada pelo temor, uma morta viva esperando a terra ou algum bicho a engolir. Acordava antes do nascer do sol, colhia a lenha para acender o fogão, buscava a água na beirada do rio, acendia o fogo, coava o café, cortava ripas de madeira para curar as feridas abertas na parede, protegendo-se melhor dos bichos que rastejavam e das feras que andavam pelo solo com a liberdade displicente dos seres que pertencem à floresta. Seu marido ia cuidar da criação no início da manhã: uma serpente de estimação, um cavalo, um cachorro e um porco. Alimentava-os bem e, depois, passava o dia pescando com os amigos no meio do rio.  A ausência de Romualdo enchia Manuelina de suspiros e sombras. A mulher perdia o apetite, perdia o sono, perdia peso, perdia até o pensamento que flanava no ar, querendo fugir, longe de tudo, como uma louca transbordando de insensatez.

Um dia, o marido de Manuelina entrou em casa, balançando seu mundo. Calcou o pé na varanda com tanta força que as paredes tremelicaram e um baque surdo ribombou em cada canto do ambiente com indignação. Ele gritou, enquanto adentrava a morada:

“Me contaram que você esteve conversando com o compadre!”

“Fui ver se ele me emprestava a arma!”

“E o que você vai fazer com uma arma? Matar algum bicho ou se matar?”

“Há muito sou um bicho!”

“Bicho, não. Louca, talvez!”

“Não sou louca, mas posso acabar ficando!”

“Pois de agora em diante, você fica em casa porque lugar de bicho é na jaula!”

Manuelina sentiu seu rosto arder, as pernas formigarem, os braços adormecerem. Brigava com seu inferno interior, regido por leis que nem Deus podia explicar. Não rompia as amarras porque tinha medo de não conseguir atravessar o rio infinito, tão infinito feito o vazio que a habitava.

Nesta noite, depois de ouvir as entranhas da terra, recostou-se no leito sem pregar o olho. O marido, ao seu lado, ressoava como um motor de popa, alheio a qualquer movimento. Então, Manuelina se sentiu fluir, viajando contra o destino, vagando pela floresta, sob o manto da noite que descia sobre a aldeia e a cobria de estrelas. Sentiu o vento balançar os galhos retorcidos das árvores, sentiu as nuvens se rasgarem no céu, sentiu a chuva umedecer a terra e sentiu o cheiro ácido do bicho que se aproximava.

Seu pelo estava molhado e o animal começou a lamber. Primeiro, molhou com sutileza suas mãos pensas para o lado de fora da rede, depois ele subiu em seu corpo e passou a língua por suas curvas com avidez, como se fosse um viajante a explorar um território desconhecido. Isso a encheu de prazer. Ela se despiu para que o animal a devorasse com a gentileza de um estranho. Depois do ato amoroso, ela adormeceu na mais completa paz.

Acordou na manhã seguinte com o cachorro ao seu lado na rede, também dormindo. Lembrou do sonho, da noite, do ato que lhe trouxe a tranquilidade do espírito. Estava envolta em suor, um tanto gosmento e malcheiroso. Resolveu tomar banho no rio, antes que o marido acordasse. Perturbou-se. Se antes permanecia imobilizada pelo temor, agora se imobilizava pelo prazer, completamente à mercê do apetite animal. Passou o dia a pensar no que tinha lhe sucedido à noite. Ela, que sempre se mantivera calada e contida, agora se guardava em segredo.

O dia se esvaiu e logo a noite caiu novamente. Manuelina, longe de temer o sono, passou a desejá-lo. ‘Estou louca’, pensou. Fechou os olhos, respirou fundo, sorvendo o ar que a envolvia e se preparou na rede. Não conseguiu dormir. Foi até à varanda e se deitou no chão, encostando o ouvido à terra. Então, o cheiro ácido de bicho a envolveu num segundo. Ela se despiu, fechou os olhos e se entregou às carícias. O animal a cavalgou como um garanhão, descendo os vales, subindo as montanhas de seu corpo que se contorcia de prazer. Ela não era mais dona de sua vontade. Na manhã seguinte, ela acordou nua na varanda com o cavalo ao seu lado. Quis gritar a plenos pulmões, num pretenso asco, mas pensou no prazer que havia sentido, então, apenas se dirigiu para o rio, sem esperar que o marido acordasse.

O dia custou a passar. O marido, depois de cuidar dos animais, saiu, como de costume, para a pesca com os amigos. Ele não lhe repararia a estranheza, nem o ar ensandecido do rosto. Ela, que sempre foi de pouca fala, falava agora um outro idioma. Ela, que há muito não vivia, suava e gemia pelos cantos esperando a noite cair para galopar territórios desconhecidos.

Seu marido chegou no final da tarde com os peixes presos a uma vara. Ela moqueou todos eles, transbordando de excitação pela noite que chegava. Mal ela caiu, o marido desmaiou na cama. Manuelina despiu-se. Aconchegou-se à rede e esperou pelo cheiro ácido. Quando ele lhe chegou às narinas, ela contentou-se numa alegria de puro instinto animal.

Sentiu a serpente aconchegá-la, deslizando pelo seu pescoço, descendo pelo colo até postar-se próxima de seu sexo úmido, pronto para ser penetrado. Ela sucumbiu, desfalecendo de prazer. Na manhã seguinte, a serpente jazia a seu lado. Ela se dirigiu novamente ao rio, passou a mão pelo seu seio desnudo, pela barriga macia, pelo pescoço que se afinava. Estranhamente, sentiu sua pele espessa, os pelos engrossados e com um cheiro tão ácido e intenso como o dos bichos, mas não deitou maiores preocupações.

Só o que tinha a fazer era esperar a noite reinar. Não gostava de o sol ostentar sua grandeza, expulsando as estrelas, assumindo-se soberano. Era a noite que trazia o encanto, com ela, todos podiam reinar. Mais uma vez, esperou a noite definhar o brilho do sol, aprumou-se na rede, enquanto o marido se retorcia no quarto. Desta vez, ele custava a dormir, ameaçando apropriar-se do que era dela pela natureza. No escuro, Manuelina pensou no marido enquanto o cheiro ácido lhe atingiu as narinas. Ele reparou que a mulher se despia, então, levantou-se da cama e a abraçou por trás. Queria a mulher rendida, entregue às suas carícias, mas, de repente, Manuelina começou a se sacudir e caiu ao chão apoiada apenas em suas mãos e pés. Soltou um gemido, que mais parecia um esturro de onça, tão forte e assustador que acabou calando todos os demais barulhos vindos da mata. O marido surpreendeu-se e quis chutar-lhe a barriga pela desfeita. Nada além disso se soube do casal.

No dia seguinte, o compadre de Manuelina apareceu no casebre e se apavorou com o que viu. Na varanda, caído em frente à porta de entrada, jazia um porco imenso com a garganta rasgada. Provavelmente deve ter sido trabalho de onça, já que na noite anterior escutara seu esturro, além do mais, suas pegadas, envoltas em sangue, ainda estavam frescas na varanda e em volta da casa. Nenhum outro corpo foi achado, mas o que chamou a atenção do homem foi a quietude do lugar, um silêncio anormal, como se tudo estivesse em paz.