Karaokê

Karaokê

por Paloma Franca Amorim

Hoy mi playa se viste de amargura
Porque tu barca tiene que partir
A cruzar otros mares de locura
Cuida que no naufrague en tu vivir  

                                                           Ao subir a lânguida escadaria da casa de dois andares espremida entre uma loja de doces e uma pizzaria, eu pude ouvir ainda sob uma névoa sonora abafada por um pretenso isolamento acústico das saletas, esse bolero “La Barca” do Roberto Cantoral. A voz feminina, no entanto, parecia deixar a famosa versão do Luís Miguel no chinelo. Não fosse pelo arranjo de sintetizador, em cujas notas podia-se com clareza perceber a simulação porca e maldita de absolutamente todos os instrumentos como se estivéssemos a ouvir uma sinfonia de jogos de vídeo game atropelados, eu teria aplaudido a performance da moça. Mas não aplaudi. Quando entrei na saleta onde ela estava, ao lado daquela em que ocorria a comemoração do aniversário de minha cunhada, vi finalmente o seu rosto.

Fingi fazer parte do grupo desconhecido, tornando-me imperceptível através daquela atitude que nós, os invisíveis, sabemos ter diante das situações de confraternização e regozijo social.

Peguei um copo de caipirinha e me escorei em um canto enquanto tentava estudar a cantora, cuidadosamente para percebê-la em seus pormenores físicos e auráticos. Era terrivelmente bonita… Olhá-la duas vezes ou mais produziu-me certa tristeza que aos 40 anos sou capaz de reconhecer e nomear, mas não o fiz porque deixar seus efeitos sobre mim no mistério das cousas pareceu no momento demasiado agradável e eu não pude me deslocar então do prazer de fitá-la, ora sossegadamente, ora em fúria, inventando-lhe uma trajetória de vida falseada, lúdica, erótica, como por exemplo fazem os pacientes com suas terapeutas nos consultórios de psicopatologia clínica.

Seus cabelos curtos conferiam-lhe um ar de Peter Pan farsesco porque sem a parte da eterna juventude almejada pelo menino perdido. De menino, aliás, não tinha nada. E a juventude já se ia acabando a notar-se pelas rugas sutis cravando-se discretas ao lado dos olhos, na região onde se espraiam os famosos pés-de-galinha que bem poderiam ser os pés de qualquer outro pássaro – mais bonito, elegante ou silencioso – mas dizemos galinha mesmo por força do hábito, bem como se dá por força do hábito o ato de cagar.

Sentei-me em uma cadeira de plástico no canto. As sombras dinamicamente infestadas por pontos de luz de um enorme globo prateado, pavoneante, no centro do teto, foram pouco a pouco misturando-se com a caipirinha de maneira a sugerirem para as vistas um gosto de limão e cachaça barata. Do outro lado da saleta minha cantora também tomava um drink em meio a alguns amigos – imagino – rindo-se da canção que agora tocava no karaokê. Só pude deduzir que se tratava de uma música pop porque me irritou aquele inglês defenestrado de poesia nenhuma do Walt Whitman.

Às vezes ela me olhava, sim, porque houvera sentido meus olhos pousando sobre si. Eu, oscilante entre o desvio e a confiança, insisti no jogo.

Então alguém anunciou que era a sua vez, novamente, de escolher o que cantar. Ela se virou fugidia e foi selecionar na pasta de títulos a chanson, depois trepou no palquinho, ocupou a posição sob a luz à pino e se aproximou do microfone preso em um pedestal sustentado, sobretudo, por uma coalizão de fitas crepes entremeadas a fim de dar impedimento à ruína total da estrutura.

De sua boca vermelha e espiralada ouvi sair o som primeiro de um anúncio avassalador: essa próxima música vai para a mulher encantadora e enigmática, que está nesse salão, vestida de azul. Um frio percorreu minha espinha de peixe pequeno e então ela começou:                                                                                                  Quando caminho pela rua lado a lado                                                                                 com você
                                                           Me deixas louca
                                               E quando escuto o som alegre do teu riso
                                    Que me dá tanta alegria
                        Me deixas louca   

Elis Regina. O clichê dos clichês. Mas afinada como um diapasão ou como o som antigo que os telefones faziam para indicar que havia linha. Era um fio sonoro bem agudo e intermitente ajustado à nota lá.

Seu timbre se despejou quente em meus ouvidos e tive a impressão de que centrava o olhar em mim, mas não tenho completa certeza pois os pontos de luz, as sombras, a paixão e a cachaça barata já me tinham deslocado para aquela zona, de herança saturnina, onde as coisas principiam a ficar mais diáfanas.

Quando me pedes por favor que nossa lâmpada se apague
Me deixas louca
Quando transmites o calor de tuas mãos
Pro meu corpo que te espera
Me deixas louca

O coro também àquela altura do álcool na corrente sangüínea já estava desavergonhado e acompanhava a crooner histericamente. Eu não. Eu fiquei em silêncio ouvindo-a se desnudar para mim em um quarto onde só havia nós duas diante de uma enorme janela sem cortina através da qual a noite entrava despudorada, acompanhada da circunspecta nesga de luz da lua cheia, de um amarelo firmado quase no vermelho, pulsante. Eu me aproximo de seu corpo sinuoso e nos beijamos entre línguas e mordidas E quando sinto que teus braços se cruzaram                                                                                                                  em minhas costas                                                                                                Desaparecem as palavras                                                   

Outros sons enchem o espaço                                             Eu sinto minhas partes virando suco

Você me abraça, a noite passa                                                                   de maracujá,

E me deixas louca                                                                             cálido

e agridoce

Ela põe a mão direita por dentro de minha calça jeans pressionando cuidadosamente o meu clitóris, depois abre a braguilha, despindo minhas ancas e pernas. Encosta meu corpo no sofá e tira finalmente minha calcinha ensopada. Ela me beija uma vez mais e inicia daí para frente uma produtiva trajetória de tranquila sucção e fricção com a ponta da língua em meus grandes lábios, pequenos lábios, clitóris e às portas sagradas da vagina. Eu agarro suas costas com minhas unhas e solto um gemido vaporoso que se origina em minha pélvis. Ela alterna sua boca entre minha xota e meus mamilos, sinto seu hálito a repercutir em meu pescoço e trêmula peço sussurrando para que ela entre e mim com seus dedos.

Lá estão eles, hesitantes para me provocar, eu enlouqueço, ela entra. O movimento circular é sereno e vigoroso, às vezes ela para e eu sinto espasmos prazerosos de excitação. Essas ações contínuas se orientam dilatando a duração de nosso encontro em semanas, meses, anos, o tempo de gestação de uma ninhada de gatos  ou da travessia de uma piscina olímpica repleta de deuses e semideuses e humanos e criaturas luciferinas fazendo todos, impiedosamente, uma grande putaria. Eu gozo.

Os últimos acordes sintetizados da música se pronunciam. Ela ri, pela primeira vez timidamente, depois de realizar com astúcia o vocalize final sem profanar a master class de Elis. Tenho a sensação de que novamente tenta me adequar a sua mirada letal. Eu a quero tanto, tanto, tanto. Eu a desejo com a fome de doze mil espartanas.

Ela cruza a saleta e desenha um abraço espalhando-se num arco que se completa quando envolve em um beijo úmido por fim a tal mulher vestida de azul, encantadora e enigmática, que – sei lá eu – deve ser a sua garota.